domingo, 6 de abril de 2014

DA PALHA DE CANA À MAGISTRATURA - Fonte:ADNEWS.Março.2014

No ADNEWS deste mês (MARÇO/2014), publicamos o Testemunho do Dr. Gilmar Silva, Juiz de Direito da Capital e Desembargador Substituto do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). Aqui, publicamos na íntegra o texto que precisamos reduzir para adaptação ao espaço do Jornal.
Foto: Elvis Irineu / RBC
Tudo começou com um sonho da adolescência. Filho de agricultores, nascido em Barra de Guabiraba, no Agreste pernambucano, especificamente na localidade de Sítio Novo, José Gilmar da Silva transpunha as barreiras de sua condição financeira e alimentava o desejo de ser advogado.
Hoje, o Doutor Gilmar é juiz de direito da capital e desembargador substituto, com atuação na área cível. Dono de uma história de dedicação, esforço e superação que é exemplo para muitas pessoas.
A família da qual nasceu era pequena: pai, mãe e três crianças — dois meninos e uma menina. A filha do casal do sítio morreu aos 12 anos, vítima de poliomielite infecciosa. As dificuldades eram presentes, “Vivia morando em casa de taipa, de chão batido, dormindo em rede, numa situação muito precária”, conta.
Quando completou 12 anos, o adolescente Gilmar começou a trabalhar no corte da cana-de-açúcar. “Além de cortar cana, eu trabalhava na roça em casa, todo o serviço de agricultura eu fazia desde criança”, explicou. Trabalhou no corte da cana até os 18 anos.
Devido à infância privada de benefícios e oportunidades, estudar não foi possível. Entretanto, sendo um autodidata, o Ir. Gilmar aprendeu a ler aos 6 anos, com uma cartilha do ABC e depois lendo revistas que conseguia com um vizinho.
Aos 14 anos, duas coisas começaram a mudar em sua história. Em primeiro lugar, a oportunidade de conhecer o Evangelho. “Em 1980, uma irmã chamada Corina trabalhou ao meu lado espalhando cana. Ela contou a história de Jonas para mim e fez o convite para que eu aceitasse Jesus”, narra. Através dele, seus pais se converteram a Cristo. Em segundo lugar, veio a oportunidade de estudar. “A esposa do meu primo, a Mirian, me disse: ‘Gilmar, você já está com 14 anos, você precisa fazer seu curso. Eu gostaria que você entrasse na quarta série’”, revelou. Apesar de não ter as três séries anteriores, o Doutor Gilmar foi um dos melhores alunos daquela turma e ganhou o boletim de conclusão do antigo Ensino Fundamental I.
Para continuar estudando, ele precisava de alguém que o acolhesse na cidade. O Sítio Novo estava distante 6 quilômetros do centro de Barra de Guabiraba, e sem transporte era impossível voltar pra casa após as aulas. “Minha mãe foi falar com um amigo da família. A família dele era numerosa, mas ele disse que, se era para que eu pudesse estudar, o que ele tivesse para os seus filhos seria para mim também. Hoje, eu louvo a Deus por ter usado essa pessoa para me ajudar e a considero como um alicerce”, explica.
Assim, durante os próximos 4 anos, a rotina do adolescente Gilmar foi: trabalhar no corte de cana até as 3 horas da tarde, correr para casa e arrumar-se, ir para a estrada esperar carona até a cidade, dormir na casa do amigo de seus pais e voltar, em um pau de arara, para o trabalho pela manhã bem cedo. “É o que eu chamo de enfrentar dificuldades, enfrentar barreiras, e não esmorecer diante de tamanhas dificuldades financeiras”, declarou o Ir. Gilmar, ao falar do sustento familiar que era exclusivamente daquilo que se cultivava.
Enquanto estudava o antigo Ginásio, hoje Ensino Fundamental II, o Doutor Gilmar conheceu a inspiração para o sonho de fazer Direito. “Eu me espelhava em uma professora de Português, a Ézia. Eu a chamava de ‘a gramática ambulante’, porque ela sabia tudo sobre português, e eu a admirava demais, principalmente por ela ser advogada.” Mas aquele desejo era praticamente impossível. “O meu sonho era ser advogado. Como, eu não sabia”, disse.
Terminando o Fundamental II, aos 18 anos, o Doutor Gilmar foi orientado a ingressar nas Forças Armadas. “Vim ao Recife e ingressei no exército [...] fiz o curso de cabo e fiquei em primeiro lugar numa turma de 86 pessoas [...] No ano seguinte, eu fiz o supletivo porque observava que estava em desvantagem em relação aos meus companheiros que já tinham o Ensino Médio, e alguns até cursavam faculdade.”
Por ter sido o primeiro colocado no curso, o Ir. Gilmar seria promovido e mandado embora. Como não tinha onde ficar no Recife e não queria voltar para o interior, pediu para não ser promovido no primeiro ano. Mas a promoção acabou não acontecendo no segundo ano, e ele ganhou uma licença sem ter pedido. “Eles tinham muito ódio porque eu arregimentava muitos soldados para assistir a um culto. Na época, eu fazia o que a Sarah, hoje, faz”, afirmou, referindo-se ao Intervalo Bíblico, que oADNews apresentou na editoria Jovem da edição de janeiro de 2014.
Tendo que deixar as Forças Armadas, o Doutor Gilmar iniciou uma verdadeira peregrinação. “Eu dormia na casa de um, na casa de outro, procurando emprego, e as portas fechadas.” Além disso, ele perdeu a mãe aos 19 anos. Havia ficado desolado.
Enquanto estava nessa situação, foi acolhido pela família da Ir. Adélia, de Brasília Teimosa, onde ficou cultuando. Conseguiu, através de um amigo, um emprego de vigilante em Boa Viagem. Ficou ali por 3 meses. “Eu passava a noite inteira trabalhando e estudando [...] havia comprado umas apostilas enquanto ainda estava no exército [...] queria fazer vestibular e já havia me inscrito [...] Naquela época era o vestibular unificado através da Covest, eram a Rural, Federal e Católica, mas para Direto havia apenas as duas últimas opções.”
Pediu demissão porque iria fazer as provas do vestibular que, na época, duravam 5 dias. “Eu tinha uma esperança de que poderia passar no vestibular, então pensei: ‘Vou ficar desempregado, vou colocar para segunda entrada, Deus vai abrir uma porta nesse interregno, e eu vou poder pagar a faculdade, se não ficar na Federal’”, contou.
No entanto, calculando que não conseguiria chegar a tempo ao local das provas — que foram realizadas no prédio de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) — saindo de Brasília Teimosa, foi à procura da Ir. Elvira, dos Torrões, que era mãe de um amigo que conhecera no Exército.
No primeiro dia de prova, no caminho, com o filho da Ir. Elvira, encontraram uma irmã estendendo roupa. Ele gritou: “Irmã, ore por esse moço que ele vai fazer o vestibular”. A irmã respondeu: “Não preciso orar porque ele já passou”, relembrou emocionado.
Saiu o resultado. Foi classificado para o curso pago, mas não tinha condições de pagá-lo. Nesse ínterim, a Ir. Elvira o chamou para morar com sua família. Foi a sua segunda mãe. Só deixou aquela casa quando se casou, em 1991. “Foi uma promessa de Deus! Ele havia me dito que iria providenciar uma mãe para mim”, contou, enfatizando que a Ir. Elvira o tratou como um filho.
Enquanto aguardava o mês de agosto, quando entrou na universidade, conseguiu um emprego em uma loja do centro do Recife. Quando as aulas começaram, surgiu um impasse no emprego. O horário do curso era pela manhã. Chegou a ter o trabalho ameaçado, mas, como Deus lhe havia falado, o gerente o procurou depois de uma semana de aula para comunicar a decisão de que ele poderia estudar pela manhã e trabalhar à tarde sem nenhuma redução de salário.
Sempre em busca de suas metas, o Doutor Gilmar não parou de se esforçar e estudar. Primeiro, conseguiu aprovação em bolsas que a universidade concedia. Depois, passou no concurso da Metrorec, onde trabalhou por 7 anos e 2 meses.
Nesse intervalo conheceu a esposa. Aos 26 anos, concluiu o curso de Direito e se casou. Sua avidez por conhecimento o levou ao topo na Metrorec. “Eu fui subindo de nível [...] não havia mais como ser promovido [...] Então, um dia, enquanto trabalhava, uma jovem do Jiquiá passou perto de mim e disse: “Deus vai triplicar o teu salário”, contou, lembrando que afirmou que cria naquela palavra, mas em sua mente sabia que isso não podia acontecer naquele emprego.
“Foi quando saiu o edital para o concurso do Tribunal Regional Federal [...] havia 33 vagas para técnico e apenas 1 para oficial de justiça avaliador, que hoje é de analista”, explicou o Doutor Gilmar. Ele decidiu se inscrever para a vaga de oficial. “Muitos advogados perguntavam se eu estava louco, porque só havia uma vaga, e eu dizia que era a minha”.
O concurso foi bastante concorrido, ao todo 35 mil pessoas se inscreveram. Depois de muito estudo e dedicação, chegaram a prova e o resultado. Dos 210 candidatos aprovados para o cargo de oficial, o Doutor Gilmar foi o quinto. “Todavia, na mesma semana que saiu o resultado, o Tribunal Regional Federal liberou mais cinco vagas. Com uma que já havia, foram seis. Eu era o quinto e entrei na primeira turma. A matemática de Deus é diferente da nossa”, glorificou. “Aí se cumpriu a promessa, o primeiro salário que eu recebi foi três vezes maior do que o da Metrorec”, pontuou.
Continuando em busca dos sonhos e sempre se dedicando aos estudos, o Doutor Gilmar decidiu ingressar na Escola Superior de Magistratura, pretendendo prestar concurso para o cargo de juiz. Em 1997, ele ingressou na magistratura. A primeira comarca em que trabalhou foi no município de Ibirajuba, depois passou por Aliança e, em seguida, São Lourenço da Mata. Nas três localidades, cumpriu-se um sonho que ele tivera. “Eu havia sonhado com militares de estrela que prestavam continência a mim, mas eu não era nem queria voltar a ser militar, e me perguntava como aquilo iria acontecer. E o Senhor cumpriu a promessa em três ocasiões”, afirmou.
Depois da graduação em Direito, o Doutor Gilmar também cursou Administração e fez pós-graduação em Direito Público. Além disso, teve a oportunidade de fazer cursos no exterior, em universidades dos Estados Unidos, do Canadá, de Portugal e da Argentina. E ainda tem projetos de cursar mestrado e doutorado.
As lágrimas que em um e outro momento inundaram os olhos durante a conversa, segundo ele, têm gosto de resultado. “O choro hoje é um choro de emoção, de alegria por aquilo que Deus fez na minha vida”, sorriu.
Ciente de que a sua história tem sido fonte de inspiração para muitos, ele não esquece o dia em que esteve realizando a cerimônia civil de um casamento coletivo, em Macaparana, Agreste de Pernambuco, e notou que um senhor o olhava com grande admiração. “Pensei: ‘Deve ser pela maneira que utilizo a Palavra de Deus em um casamento civil, pela maneira que me preocupo com o ambiente, colocando um fundo musical’”, disse. Entretanto, em um culto de Santa Ceia, no Templo Central, reconheceu, entre os ministros, um conhecido do interior, era o mesmo senhor que o olhava naquele casamento. “Fui falar com ele, e ele perguntou se eu era filho do seu Zé Galego — forma como meu pai era chamado — e se eu era juiz, e se havia feito um casamento em Macaparana, respondi que sim. Foi quando ele disse: ‘Eu cheguei em casa e disse à minha esposa que aquele juiz era o filho de seu Zé Galego, mas ela disse: ‘Não pode ser, ele era cortador de cana, como é que ele pode estar ali como juiz?’ [...] Aí, pra mim, isso é muito forte, porque Deus faz o impossível acontecer’”, concluiu com lágrimas.
Em dezembro de 2013, saiu a publicação que informava a seleção do Doutor Gilmar para compor o grupo dos desembargadores substitutos. “Eu encaro isso como atuação de Deus, foi uma surpresa, mas não muda em nada a minha pessoa, continuo sendo o Ir. Gilmar”, completou o juiz de direito da capital, que também é diácono da IEADPE.
Encerrando este texto, cujo título foi escolhido pelo seu entrevistado, trazemos as palavras do Doutor Gilmar sobre sua atividade na magistratura. “Eu não tenho dúvida de que é a atuação de Deus na minha vida [...] eu consideraria como um ministério mesmo [...] Deus tem se utilizado de cada momento; muitos divórcios deixaram de acontecer porque Deus se utilizou da ferramenta que eu tinha nas mãos [...] casos difíceis de serem resolvidos, e Ele me orientou [...] posso dizer que tenho dormido tranquilo porque o que eu fiz foi fazer justiça”.
FONTE: ADNEWS.MARÇO.2014.

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